Augusto de Campos: REVER velhos amigos no território do poético

pulsar

“O pulsar” (1975), in Viva vaia (1979)

Grande mostra retrospectiva esta, no Sesc Pompeia (em cartaz até 31/07/2016). Hoje pude ver metade dela; assim tenho uma excelente desculpa para ir lá outra vez. E foi uma alegria REVER trabalhos de Augusto que já são como velhos amigos de toda uma vida para mim. Desde “eixoolho/polofixo” (que considero perfeito na sua concisão), “caracol” e “eis os amantes” (este, da série Poetamenos), que foram os primeiros poemas que vi interpretados ao vivo, pelo Trio ExVoco alemão; passando por “comsom/semsom“, o primeiro poema que tentei explicar para um colega, ainda no ensino médio; e assim por diante… Também devem estar lá (na parte que ainda falta visitar) o “miragem” (“incerto ser inserto”), que foi o poema que musiquei para voz (soprano ou tenor) e violão, e mostrei ao poeta; o poemalivro “não“, que ganhei autografado do autor;  e “no/turna noite” (da série “ovonovelo“, que termina com “preta letra que se torna sol” — este, que usei como dedicatória em um livro que dei de presente à minha mãe muitos anos atrás).

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“Código” (1973), também em Viva vaia (1979)

Um ponto altíssimo é poder ver os rascunhos e provas datilografadas de muitos poemas (inclusive os Poetamenos com os carbonos coloridos utilizados pelo autor). Achei particularmente interessante encontrar algumas leituras de poemas que não utilizam vídeo nem computador nem projeção, como por exemplo “vida” e “Código“, que são, em vez disso, cuidadosamente montados e iluminados no suporte material. Bacana esse retorno às origens. Poesia concreta tem que ter a concretude da matéria, além da concretude “verbivocovisual”  da palavra… Legal também foi ver a mostra de livros publicados por Augusto e constatar que tenho pelo menos uns bons vinte e seis deles, reunidos ao longo de anos e anos… inclusive, claro, o Viva vaia, com o qual meu pai me despertou numa bela manhã de sábado, quando eu ainda era moleque adolescente. Ele havia ido cedo ao centrão de SP e comprado o livro, que sabia que eu tanto queria, para me dar de presente…

O destaque maior, na exposição, é dado aos trabalhos autorais de Augusto, mas não se deve esquecer seu volumosa obra de tradução poética. Minha concepção, em particular, do que é a tradução deve muitíssimo à influência desse mestre.

A esmagadora maioria dos trabalhos de Augusto, seja de que época forem, não perdeu seu frescor e não ficou “datada” com a passagem do tempo — porque é verdadeira poesia, e da boa. Seus poemas continuam a pairar como faróis a alumiar nossos espaços pessoais poéticos, emotivos e mentais. É, com efeito, um “poeta de campos e espaços”, como disse Caetano.

Serviço completo da mostra aqui: http://www.sescsp.org.br/programacao/89797_REVER+AUGUSTO+CAMPOS#/content=saiba-mais

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Pierre Henry’s House of Sounds

Bergjord_Pierre HenryUm livro fotográfico belo e emocionante de Geir Egil Bergjord — uma obra de fato muito especial — agora está ao alcance de todos nós e pode ser folheado de maneira muito conveniente na Internet.

Em cerca de uma centena de fotos magníficas, Bergjord nos leva para dentro de uma casa muito peculiar, situada em 32, Rue de Toul, Paris, onde vive e trabalha o compositor Pierre Henry. Naquele microcosmos, uma verdadeira “instalação” habitada por seu criador, tudo gira em torno do som, de suas associações e conotações, da música, da sua história, e também — intensamente — em torno da memória.

Pierre Henry é um dos pioneiros da “fase heróica” da música concreta, no final dos anos 40 e início dos 50, juntamente com Pierre Schaeffer — com quem, aliás, compôs a famosa “Symphonie pour un homme seul“. Também é o autor de clássicos da musique concrète como “Concerto des ambiguités“, “Microphone bien témperé”, “Le voile d’Orphée” e outros. Sua produção se estende por décadas, até os anos 90 do XX. (Você pode escutar várias dessas composições na extraordinária antologia histórica de música eletrônica/eletroacústica preparada por Caio Barros para a UbuWeb.)

O ensaio fotográfico de Bergjord, com grande sensibilidade, e tomado de muita empatia com o morador assaz especial daquela casa — veja, no relato pessoal às pp. 217-218, como o fotógrafo não deixa de ser um fã — nos faz pensar, sonhar e, verdadeiramente, ouvir com os olhos.

Esta descoberta imperdível foi comunicada por Hermann Helmholtz (do Facebook), grande garimpeiro/a e compartilhador/a de tesouros relacionados com a música de invenção e suas intersemioses.

Hegenberg, a teoria da informação, a música e eu

Maser_Fundamentos_Teoria_ComunicacaoLeônidas Hegenberg (1925-2012), filósofo da ciência, morto no último dia 28/11, foi uma influência importante para mim, em mais de um campo. (No meu outro blog, postei uma nota sobre ele como filósofo.) Quero agora falar de uma conexão com a música.

Os interesses de Hegenberg ultrapassavam a lógica e a filosofia da ciência, chegando à teoria da informação, o que fez com que, ao traduzir Fundamentos de teoria geral da comunicação, de Siegfried Maser (1975), incluiu um apêndice, baseado em alguns trabalhos que orientou no ITA com estudantes de graduação, sobre a determinação da entropia de textos em língua portuguesa.

Xenakis - Formalized Music

Bem, o ponto é que as implicações desse pequeno trecho me fascinaram, quando ainda era aluno de física no IFUSP, no final dos anos 80. Na época, a idéia de “tradução intersemiótica” (via Julio Plaza) estava minha na cabeça. Foi um pulo para que eu me interessasse pelo problema da análise matemática / informacional, não de textos verbais, mas sim de composições musicais.

Na época, outra leitura que incendiou minha imaginação era Formalized music: Thought and mathematics in composition de Iannis Xenakis. A edição em francês dessa obra incrível, fabulosa, está disponível para download.

Abaixo, duas partituras do compositor grego:

Iannis Xenakis - Metastasis (1954), manuscrito. Fonte: MOCA, Los Angeles

Iannis Xenakis – Metastasis (1954), manuscrito. Fonte: MOCA, Los Angeles

Iannis Xenakis, Terretektorh (1965), manuscrito. Fonte: MOCA, Los Angeles

Iannis Xenakis, Terretektorh (1965), manuscrito. Fonte: MOCA, Los Angeles

Comecei a enveredar não só pelas entropias, mas também pelas matrizes de Markov, autocorrelações e compressibilidades dos discursos musicais, e também por algoritmos composicionais. Ou seja, a idéia era usar estruturas matemáticas nos dois sentidos — tanto para analisar quanto para compor música.

Hoje isso é até bem corriqueiro, na música contemporânea, porém 25 anos atrás era quase novidade. E acabei escrevendo um texto em 1987 sobre tudo isso, como trabalho de curso de “Fenômenos aleatórios da Física”, analisando peças de Bach, Mozart, Beethoven, Stockhausen e Boulez, e terminava o texto compondo um “coral estocástico” a 4 vozes… Se eu conseguir encontrar esse texto e escaneá-lo, irei postar aqui, só por curiosidade.

E tudo isso começou com um texto de Leônidas Hegenberg. Adeus, velho mestre.