Bach na Sexta-Feira Santa

Página da Paixão segundo Mateus, edição Eulenberg.

Acabei de escutar, nesta Sexta-Feira Santa: a Paixão segundo Mateus de Bach, BWV 244, na versão de Karl Richter, com Ernest Haefliger como o Evangelista (tenor), Kieth Eegen como Jesus (barítono), Dietrich Fisher-Dieskau (árias de barítono), Max Proebstl (baixo), Irmgard Seefried e Antonia Fahberg (sopranos) e Hertha Töpper (contralto). Orquestra Bach de Munique, Coro Bach de Munique e Coro de Meninos Bach de Munique.

A obra em si é fabulosa, nem é necessário falar sobre ela. Compará-la a uma catedral seria pouco. Está simplesmente repleta de grandes momentos. Já sobre a performance, direi o seguinte. Apesar de todas as outras versões recentes do BWV 244 que têm sido feitas, com instrumentos de época, e algumas até com uma-voz-por-parte — algo que me parece ser, por um lado, um exagero, e por outro, uma distorção –, a versão do velho mestre Richter continua me parecendo insuperável. (Sem menosprezar outros grandes recriadores de Bach, como Helmuth Rilling, por exemplo.) Richter possui sutileza quando a sutileza se faz necessária, mobiliza potência maciça quando é preciso poder e massa, e sua leitura é perpassada de uma clareza polifônica exemplar, somada a uma perfeita compreensão da estrutura dramática do oratório. Os andamentos são precisamente aqueles que, em minha opinião, devem ser adotados — ao contrário das versões recentes que, rapidíssimas, chegam a levar até meia hora a menos (!) do que Richter para completar a obra.

Para o Sábado de Aleluia, recomendo a fantástica cantata Christ Lag in Todesbanden, BWV 4. No ano passado, na Sexta-Feira Santa, escutei, também de Bach, a Paixão segundo João, BWV 245, com o mesmo Karl Richter. Queria ainda ter escutado hoje a Paixão segundo Lucas de Krzysztof Penderecki, mas demorei para achar a gravação — estava tão bem arquivada que ficou escondida — e acabou não dando tempo. :-/ Mas neste sábado quero escutá-la.