Hermeto e a nucleossíntese primordial em Montreux

ERUMETO PASCOARU! Este show já tem exatos 40 anos, e devia ser analisado por meteorologistas, em vez de críticos musicais, pois Hermeto fez chover naquela ocasião em Montreux.

Aqui, graças à TV japonesa, podemos ver e ouvir aquela apresentação em toda a sua glória (como japoneses e alemães caprichavam na captação de som ao vivo já nos anos 70! A gravação é primorosa, consegue-se escutar tudo com clareza). As músicas foram apresentadas originalmente em uma ordem um pouco diferente daquela a que estamos acostumados em função do clássico vinil duplo “Hermeto Pascoal ao Vivo” da WEA (que contém várias outras músicas não incluídas neste vídeo, também primorosamente gravadas; recomendo fortemente a escuta).

No holds barred here. Os músicos parecem se comunicar telepaticamente. Hermeto está aqui no auge de sua técnica e sua criatividade na improvisação, em qualquer escala, qualquer centro tonal ou atonal, com qualquer coisa que faça som. Zabelê se mostra simplesmente possuída pela música, aparece a visão harmônica de Jovino Santos (aqui um garoto ainda), a classe incomparável de Nivaldo Ornellas, a fúria-de-precisão de Nenê, e o contrabaixo de Itiberê nunca soou tão belo. Cacau um garoto ainda nos sopros, mas já brilhante, e Pernambuco sem deixar nada a dever a grandes mestres da percussão brasileira como Naná e Airto.

Quando alguém lhe perguntar como é possível um equilíbrio perfeito entre dois pólos aparentemente tão contraditórios como a total liberdade improvisatória e a mais estrita estruturação — ou, alternativamente, entre puro humor e alegria de viver, de um lado, e a mais absoluta seriedade focalizada, de outro — você poderá responder mostrando o registro deste show.

O antológico improviso de Hermeto a partir dos 20:00 dos vídeo mostra, em forma de música, como deve ter sido a separação entre matéria e radiação após o big bang, a separação das quatro interações fundamentais, os três primeiros minutos do universo, a nucleossíntese primordial, a formação dos mais leves elementos químicos. O solo não estaria completo sem a exclamação de Hermeto (“mais som aqui, mais volume! Mais som no microfone, pufavô!”) Outro grande improviso — já dos elementos pesados e metais de transição… —  aparece no vinil, na faixa “Remelexo”, quando aparece no meio até um Pai-Nosso a capella. O derradeiro improviso antológico está no vídeo a partir dos 36:45, quando Hermeto faz da escaleta. do apito e do piano elétrico verdadeiros instrumentos de concerto de câmara — identifique as citações por volta dos 51:00! — já poderia se referir à formação das primeiras macromoléculas e ao nascimento da vida complexa, e da vida em sociedade, com amor, brincadeira, companheirismo, festa e arte.

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Victor Assis Brasil, Pedrinho

Is it John Coltrane (for some reason playing here the alto sax), with McCoy Tyner (piano), Jimmy Garrison (bass) and Elvin Jones (drums)? No: it’s Victor Assis Brasil (as), with Jota Moraes (p), Paulo Russo (b) and Ted Moore (d). The comparison is not, I think, wholly unwarranted. I have been listening to this record for thirty-five years already, and it still amazes me: it is clearly one of the greatest Brazilian jazz recordings ever. There wasn’t any jazz musician in Brazil as towering a figure as Victor. His phrasing is ambitious, daring, well-developed, large-scale; his articulation is exceedingly sharp and clear. Harmonic freedom and space for modulation is always generous. He could draw musical phrases of the utmost elegance, class and equilibrium, just as well as he could decompose his utterances into a myriad fractured, scattered sonic debris. His playing could be either smooth and fluid or steep and angular.

He always inspired the other musicians to give beyond the best of themselves. The recordings he has made along a remarkable, tragically short career (he died at age 35) provide ample evidence for this. Along the seven tracks of Pedrinho (vinyl LP, Odeon, 1981 — all of them available on Youtube), Moraes, Russo and Moore keep an impeccable groove all the time. Their improvisations are inspired, succinct, and elegant (Moraes sometimes makes one indeed think of McCoy Tyner). Changes of tempo and time signature are always seamless and convincing (listen, e.g. to “Night and Day” for an absolutely amazing example). The approach towards standards, both Brazilian (Caymmi’s “O cantador” and Milton Nascimento’s “Nada será como antes”) and North American (Cole Porter’s “It’s all right with me” and “Night and day”, as well as the Gershwins’ “S’wonderful”) is respectful yet inquisitive. Among Victor’s own compositions, the title track provides ample space for lyricism, while “Penedo” allows the most free, long-range, breathtaking improvisations of the whole record.

Exposição sobre Paulo Moura no Sesc Pompéia

Capa do programa da exposiçãoUma exposição memorável e muito bonita está em cartaz no SESC Pompéia, em São Paulo, focalizando a vida e obra do grande saxofonista Paulo Moura, que durante uma carreira extraordinariamente rica, transitou com autoridade entre a música erudita, a música instrumental contemporânea, a música latino-america de raiz, o samba de gafieira, o choro… A exposição traz vários dos instrumentos usados pelo instrumentista, bem como alguns de coleção (oriundos de suas viagens), fotografias, memorabilia variada, anotações manuscritas, etc.

Uma das coisas que mais me chamaram a atenção é o número de partituras e livros pertencentes ao maestro, especialmente de música contemporânea ou de ‘vanguarda’: Krzysztof Penderecki, Karlheinz Stockhausen, Hans-Joachim Koellreutter, Arnold Schoenberg, Anton Webern… Ele lia e refletia muito sobre as estéticas contemporâneas mais avançadas. Os painéis reproduzindo anotações de Moura em ponto grande tratam de temas como a dialética entre som e silêncio, e parecem revelar a influência de Koellreutter.

Tive o privilégio de assistir o duo Paulo Moura-Clara Sverner, sax e piano, em concerto no Masp, no final dos anos 80 ou início dos anos 90. Recordo-me perfeitamente que o programa daquela noite contava com mais composições ditas ‘clássicas’ do que ‘populares’. Foi tocada uma peça de Debussy — a Rapsódia para sax alto e orquestra, numa redução para piano. Na exposição, os duos de Moura com Sverner, Yamandu e outros são devidamente lembrados, assim como sua particpação no lendário projeto ConSerTão, com Artur Moreira Lima, Heraldo do Monte e Elomar.

A exposição fica em cartaz até dia 5 de setembro de 2012.