Meu canal no Youtube & novas performances ao violão e contrabaixo

BACHVoltei a tocar violão recentemente, inspirado por minha filhinha, após um interregno de muitos anos de silêncio, tendo sido violonista clássico no passado distante.
Há algum tempo criei um canal no Youtube para abrigar meus vídeos de algumas interpretações ao violão e ao contrabaixo. Ali estão composições de J. S. Bach, Luys de Narváez, Luys Milán, João Pernambuco, Leo Brouwer, minhas próprias, e algumas outras. São gravações despretensiosas, feitas com a câmera do celular, e estou longe de tocar como antigamente — as falhas são numerosas. Mas, agora, trata-se mais uma questão de prazer e diversão do que de perfeição.
Quem sabe vocês encontrem ali algo que lhes agrade escutar… Quando tiverem um tempinho livre, façam uma visita! O endereço do canal é:
ou
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Motetos de Bach com o Monteverdi Choir

O Bach nosso de cada dia…

Hoje, o destaque são os encantadores Motetos BWV 225-230 (+ BWV 159 Anhang), repletos de esperança. Embora alguns tenham sido compostos para funerais, Bach expõe neles a sua visão de mundo, como sempre, de grande serenidade. A versão do Monteverdi Choir / Gardiner é de grande leveza, e o coro parece estar muito à vontade. O fato de haver um baixo contínuo (cello, contrabaixo, fagote e órgão) a garantir a afinação ajuda a deixar os/as cantores/as descontraídos/as para, digamos, “se esbaldar” na execução. Parece-me uma opção acertada de Gardiner: o ganho estético resultante mais do que compensa a perda do caráter estritamente vocal original (somente o BWV 226 e o BWV 230 foram compostos para coro(s) com acompanhamento — uma pequena orquestra, no primeiro, e baixo contínuo, no segundo). Ademais, o Monteverdi tem muita tradição em cantar polifonia (e em torná-la transparente). Quando cantei com o Coralusp o BWV 225, o mais extrovertido deles (SATB+SATB, começa aqui em 51:27), nós o executávamos “na raça”, a capella mesmo. Na época, foi para mim uma tal imersão que, no final, eu já ficara conhecendo nada menos que quatro vozes do moteto na íntegra e de cor: os tenores I e II e os baixos I e II… 🙂

Bach BWV 29, ou o remix “avant la lettre”

Bach_BWV29O fantástico projeto All of Bach, empreendido pela Netherlands Bach Society, divulgou sua performance da Cantata BWV 29, “Wir danken dir, o Gott, wir danken Dir”, sob a regência de Jos van Veldhoven.

Além de ser uma maravilha, esta cantata evidencia, com todo o impacto, o lado “DJ / Remixer” de JSB (entre outros exemplos espalhados por sua obra, como o “Weihnachts-Oratorium” [Oratório de Natal] BWV 248, que está cheio deles). Vejamos duas instâncias disso na peça.

I

A Sinfonia de abertura da Cantata BWV 29 tem sua origem na obra de Bach como prelúdio da Partita BWV 1006 para violino solo (!) e como prelúdio da Suíte No. 4, BWV 1006a para alaúde (!!). A seguir, duas interpretações do BWV 1006a, ambas em transcrição do alaúde para o violão. Uma com John Williams:

e outra (em tempo bem mais lento) com Göran Söllscher:

E aqui está a versão fulminante de Gidon Kremer ao violino para a Partita BWV 1006:

Na partita para violino, tão importante quanto aquilo que soa é aquilo que é virtual — aquela parte do espaço sônico e das estruturas nesse espaço que é apenas sugerida ou deixada implícita pelo compositor, para que nossa mente, então, encarregue-se de preencher esse espaço.

Não poderia deixar de lembrar aqui também a interpretação antológica feita por Wendy Carlos, ainda na fase heróica dos sintetizadores analógicos — eis aqui duas recriações atuais: 1 (mais fiel a WC) | 2).

II

Já o Coral de abertura da Cantata BWV 29 (no vídeo do projeto AoB, a partir de 4:00) reaparece como nada mais, nada menos que o “Gratias Agimus Tibi” da Missa em Si Menor, BWV 232, aqui com o coral da Thomaskirche de Leipzig e a orquestra do Gewandhaus de Leipzig, no Bachfest 2000, tendo Georg Christoph Biller como “Thomaskantor”:

O mais surpreendente é que a mesma composição reaparece de novo como encerramento sublime da mesma Missa, no “Dona Nobis Pacem” — a seguir com a Klaipėda Chamber Orchestra, o Klaipėda Choir “Aukuras” e o Šiauliai State Chamber Choir “Polifonija” (todos da Lituânia), sob a regência de Saulius Sondeckis:

Como escrevi acima, há muitos exemplos mais desse processo de recontextualização e recriação dentro da obra de Bach. Espero voltar ao tema em breve.

E quem irá dizer que Bach não é o inventor e o máximo expoente do remix! 🙂

Bach, visual, em 1912

Compartilho aqui uma bela e especial partitura, que redescobri remexendo nos alfarrábios familiares:

Bach_15_Inventionen_Capa

Uma edição de 1912 das Invenções a Duas Vozes, de Bach, BWV 772-786, impressa em Leipzig. (Preciso de um scanner maior.)

Repare num detalhe maravilhoso dessa capa. No alto, há uma espécie de selo, um círculo contendo duas pautas cruzadas. Uma única nota aparece no centro, “vista” de quatro diferentes claves. Veja no detalhe:

BACH

Se você lê no sentido anti-horário a partir da esquerda — portanto, a mesma nota, sucessivamente, aparecendo em clave de Sol com um bemol, clave de Dó na quarta linha, clave de Dó na terceira linha, e clave de Sol sem acidente nenhum — você tem as quatro notas seguintes: Si bemol, Lá, Dó e Si natural. Ou seja, B-A-C-H. 🙂

O frontispício anuncia também que cada invenção é acompanhada do respectivo “esquema harmônico”.

Bach_15_Inventionen_Frontispicio

O mais fascinante, do ponto de vista da história da tipografia musical, é que a edição é em cores! Uma notação colorida é empregada para destacar os temas e contratemas. Contraponto visual, além de sonoro! Aqui, a página contendo a Invenção No. 2:

Bach_15_Inventionen_Inventio_II

E assim para todas as quinze Invenções. Que beleza, não? Espero conseguir em breve escanear essa edição na íntegra em um scanner com mais recursos.

Essa notação colorida talvez correspondesse, nos dias de hoje, a vídeos como este sobre a Grosse Fuge Op. 133 de Beethoven:

(Procure também pelos outros vídeos contemplando a Passacaglia e Fuga BWV 582, a Quinta e a Nona de Beethoven, a 40 de Mozart, etc.)

Bach na Sexta-Feira Santa

Página da Paixão segundo Mateus, edição Eulenberg.

Acabei de escutar, nesta Sexta-Feira Santa: a Paixão segundo Mateus de Bach, BWV 244, na versão de Karl Richter, com Ernest Haefliger como o Evangelista (tenor), Kieth Eegen como Jesus (barítono), Dietrich Fisher-Dieskau (árias de barítono), Max Proebstl (baixo), Irmgard Seefried e Antonia Fahberg (sopranos) e Hertha Töpper (contralto). Orquestra Bach de Munique, Coro Bach de Munique e Coro de Meninos Bach de Munique.

A obra em si é fabulosa, nem é necessário falar sobre ela. Compará-la a uma catedral seria pouco. Está simplesmente repleta de grandes momentos. Já sobre a performance, direi o seguinte. Apesar de todas as outras versões recentes do BWV 244 que têm sido feitas, com instrumentos de época, e algumas até com uma-voz-por-parte — algo que me parece ser, por um lado, um exagero, e por outro, uma distorção –, a versão do velho mestre Richter continua me parecendo insuperável. (Sem menosprezar outros grandes recriadores de Bach, como Helmuth Rilling, por exemplo.) Richter possui sutileza quando a sutileza se faz necessária, mobiliza potência maciça quando é preciso poder e massa, e sua leitura é perpassada de uma clareza polifônica exemplar, somada a uma perfeita compreensão da estrutura dramática do oratório. Os andamentos são precisamente aqueles que, em minha opinião, devem ser adotados — ao contrário das versões recentes que, rapidíssimas, chegam a levar até meia hora a menos (!) do que Richter para completar a obra.

Para o Sábado de Aleluia, recomendo a fantástica cantata Christ Lag in Todesbanden, BWV 4. No ano passado, na Sexta-Feira Santa, escutei, também de Bach, a Paixão segundo João, BWV 245, com o mesmo Karl Richter. Queria ainda ter escutado hoje a Paixão segundo Lucas de Krzysztof Penderecki, mas demorei para achar a gravação — estava tão bem arquivada que ficou escondida — e acabou não dando tempo. :-/ Mas neste sábado quero escutá-la.

Comparando performances de Bach

Posto aqui um informe rápido, para avisar sobre um grupo de posts maiores que irão aparecer em breve aqui neste blog. Trata-se de um estudo comparativo que estou escrevendo sobre diferentes performances dos concertos para violino de J. S. Bach, BWV 1041, 1042 e 1043 (este último para 2 violinos), e também o concerto para violino e oboé BWV 1060. As interpretações que escolhi para este projeto são as de Hilary Hahn, Julia Fisher, Elisa Fukuda e David Oistrakh. Entram no estudo também as transcrições feitas pelo próprio Bach para dois dos concertos, para teclado, e aqui a interpretação escolhida é de Glenn Gould. Aguardem, então, as novidades em breve. 🙂