Minha trilha sonora para o fim do mundo

Agora sim: para o mundo acabar, esta é a minha trilha sonora: o Requiem de Jean Gilles (1668-1705). Por favor, responsáveis pelo som ambiente do fim do mundo: sincronizem os eventos de tal forma que, quando as estrelas se apagarem, chegue exatamente na parte “Lux perpetua / Requiem aeternam (II)”. Começa em 18min30s. Obrigado.

E aqui está a parte I, para que possam escutar na ordem certa:

As versões antigas, com instrumentos modernos — como esta, com a orquestra de câmara Jean-François Paillard — são, na minha opinião, insuperáveis.

Muitas versões modernas, com instrumentos antigos, como a de Herreweghe com La Chapelle Royale, também estão disponíveis:

… porém esta eu já aprecio bem menos.

A versão da Netherlands Bach Society se ressente de uma pronúncia atroz para os nossos ouvidos latinos, todos os “u” vêm com trema:

E a versão de H. Niquet me parece excessivamente rápida:

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Hegenberg, a teoria da informação, a música e eu

Maser_Fundamentos_Teoria_ComunicacaoLeônidas Hegenberg (1925-2012), filósofo da ciência, morto no último dia 28/11, foi uma influência importante para mim, em mais de um campo. (No meu outro blog, postei uma nota sobre ele como filósofo.) Quero agora falar de uma conexão com a música.

Os interesses de Hegenberg ultrapassavam a lógica e a filosofia da ciência, chegando à teoria da informação, o que fez com que, ao traduzir Fundamentos de teoria geral da comunicação, de Siegfried Maser (1975), incluiu um apêndice, baseado em alguns trabalhos que orientou no ITA com estudantes de graduação, sobre a determinação da entropia de textos em língua portuguesa.

Xenakis - Formalized Music

Bem, o ponto é que as implicações desse pequeno trecho me fascinaram, quando ainda era aluno de física no IFUSP, no final dos anos 80. Na época, a idéia de “tradução intersemiótica” (via Julio Plaza) estava minha na cabeça. Foi um pulo para que eu me interessasse pelo problema da análise matemática / informacional, não de textos verbais, mas sim de composições musicais.

Na época, outra leitura que incendiou minha imaginação era Formalized music: Thought and mathematics in composition de Iannis Xenakis. A edição em francês dessa obra incrível, fabulosa, está disponível para download.

Abaixo, duas partituras do compositor grego:

Iannis Xenakis - Metastasis (1954), manuscrito. Fonte: MOCA, Los Angeles

Iannis Xenakis – Metastasis (1954), manuscrito. Fonte: MOCA, Los Angeles

Iannis Xenakis, Terretektorh (1965), manuscrito. Fonte: MOCA, Los Angeles

Iannis Xenakis, Terretektorh (1965), manuscrito. Fonte: MOCA, Los Angeles

Comecei a enveredar não só pelas entropias, mas também pelas matrizes de Markov, autocorrelações e compressibilidades dos discursos musicais, e também por algoritmos composicionais. Ou seja, a idéia era usar estruturas matemáticas nos dois sentidos — tanto para analisar quanto para compor música.

Hoje isso é até bem corriqueiro, na música contemporânea, porém 25 anos atrás era quase novidade. E acabei escrevendo um texto em 1987 sobre tudo isso, como trabalho de curso de “Fenômenos aleatórios da Física”, analisando peças de Bach, Mozart, Beethoven, Stockhausen e Boulez, e terminava o texto compondo um “coral estocástico” a 4 vozes… Se eu conseguir encontrar esse texto e escaneá-lo, irei postar aqui, só por curiosidade.

E tudo isso começou com um texto de Leônidas Hegenberg. Adeus, velho mestre.

Update de repertório

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Então estamos assim. O repertório que, por estes dias, estou conseguindo tocar razoavelmente ao contrabaixo é o seguinte:

– Bach – Contraponto I da Arte da Fuga, BWV 1080

– Milt Jackson (com Oscar Peterson e  Ray Brown) – “Reunion blues”

– Morphine – “Buena”

– Pete Townsend – “Face the face”

– Amleto Barboni – “I’m a hustler” (blues)

– Steve Ray Vaughan – “Pride and joy” (blues)

– Amleto Barboni – “Fast as you can be” (blues)

– Charlie Byrd, Barney Kessel, Herb Ellis – “Cow cow boogie” (blues)

– Gershwin (versão Victor Assis Brasil) – “Summertime”

– Men at Work – “Be good Johnny”

– Kaiserchiefs – “Never miss a beat”

– Rush – “Tom  Sawyer”

– João Bosco (versão e arr. Céu) – “O ronco da cuíca”

– Céu – “África/Rainha”

– Afro-Celt Soundsystem – “Lovers of light”

– Duran Duran – “Too much information”

– Seal – “Crazy”

– Ed Motta – “Manuel”

Precisando de polimento:

– Bach – Ricercare a 6 da Oferenda Musical, BWV 1079

– Metallica – “Fuel”

– Police – “Synchronicity”

– Rush – “The big money”

– Yes – “Owner of a lonely heart”

– Celso Pixinga – “Paulista blues”

E… para estudar muito ainda:

– As versões do Zimbo Trio para Milton Nascimento (1984/1994)

– Banda Black Rio – Do disco “Gafieira universal”

– Stanley Clarke – “School days”

– Stanley Clarke – “Hot fun”

– Grand Funk Railkroad – Do disco “E Pluribus Funk”

Uma seleção bem eclética. O que todas essas músicas têm em comum são linhas de baixo com personalidade própria. O que é um desafio e tanto para um amador tardio no instrumento, como eu.

O que mais preciso agora é manter a regularidade. Arranjar tempo, de qualquer jeito, para treinar. Não importa como. Colocar como prioridade. Regularidade é tudo no estudo da música. E é muito, mas MUITO legal quando a gente sente que as músicas começam a sair bem. Uma emoção muito especial. Poucas coisas se lhe comparam.