Billy Cobham está chegando

Foto: Tim Brooks (notesonjazz.blogspot.com) - ou Heinz Kronberger (www.drummerworld.com)

Um dos maiores bateristas de todos os tempos, lenda viva do seu instrumento no panorama no jazz-rock (e também em outras linguagens), o grande Billy Cobham, irá se apresentar no Sesc Pinheiros nos dias 28 e 29/01/11 (sábado e domingo). Estou na maior expectativa para o show de domingo. Admiro o trabalho do Maestro há três décadas.

A Mahavishnu em 1973. (Wikipedia)

Billy despontou com mais força no cenário musical quando tocou (entre 1969 e 1979) com Miles Davis — fazendo parte daquele time que, liderado pelo trompetista, deflagrou a revolução do jazz elétrico, de Bitches Brew até Circle in the Round — e também quando participou daquela máquina musical avassaladora e inesquecível que foi a Mahavishnu Orchestra liderada por John McLaughlin. Os discos da MO (cinco dos quais foram reeditados no Brasil num pack econômico da Sony BMG) mostram um Billy alucinado, com um virtuosismo, energia, criatividade e precisão aparentemente inesgotáveis. (Antes, bem no início da carreira, BC já havia tocado com gente boa como Horace Silver, George Benson, John Abercrombie e Michael Brecker.)

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Enquanto o domingo não chega, vou me preparando mentalmente para o show escutando trabalhos como os discos solo Warning (1985) e Focused (1999), bem como a memorável jam session (de lavar a alma — certamente valerá uma resenha aqui, oportunamente) Live at The Greek (1994), com Stanley Clarke, Larry Carlton, Deron Johnson e Najee, bem como os clássicos da Mahavishnu. Espero postar aqui comentários após o show. Aguardem.

Miles Davis continua até dia 29/01 no Sesc Pinheiros

A exposição Queremos Miles, produzida pela Cité de la Musique francesa, foi prorrogada e continua em cartaz no Sesc Pinheiros até domingo, 29/01/2012. Trata-se de uma produção esmerada, documentando com material farto e raro material sonoro, iconográfico e manuscrito, e grande quantidade de memorabilia, as várias fases da música de Miles.

A exposição documenta as três revoluções de Miles: o cool jazz, o jazz modal e o jazz-rock ou jazz elétrico. O visitante, passando pelos vários ambientes cuidadosamente produzidos e montados (veja o mapa), pode fazer um percurso completo, indo desde os primeiros contatos de Miles com a música — ainda aluno iniciante no trompete — na época do swing, passando pelo início de carreira no ambiente bebop, tocando com Charlie Parker e muitos outros; a revolução do noneto do Birth of the Cool (final dos anos 40); a fase do hard bop e das viagens à Europa; o primeiro quinteto/sexteto (segunda metade dos anos 50); a fase das obras-primas com arranjos de Gil Evans (final dos 50 e início dos 60); a era de Kind of Blue e do jazz modal (de 59 até 63); o segundo grande quinteto (Miles-Shorter-Hancock-Carter-Williams); a fase de transição para o jazz elétrico e o contato com Joe Zawinul (1967-1969), o chamado jazz-rock de Bitches Brew, Live-Evil, e do festival da Ilha de Wight; os experimentos e o silêncio dos anos 70; até o ressurgimento como grande celebridade pop e os flertes com o funk e o hip hop nos anos 80.

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Várias pequenas salas são especialmente projetadas para permitir a escuta de faixas selecionadas de discos seminais.

Miles Davis por Anton Corbjin, 1985.

Alguns momentos singulares para quem se interessa pelo personagem Miles e pelos aspectos da sua vida pessoal são, por exemplo, as fotos de um Miles surpreendentemente sorridente — ele, que sempre aparecia carrancudo — e com expressão suave, junto com a cantora Juliette Gréco, sua namorada na época; as fotos de infância, com Miles de calças curtas, e os diplomas da família (o pai era dentista e fazendeiro); três fotos grandes de um Miles extremamente à vontade no palco junto com o ‘Presidente’ Lester Young; um vídeo em super-8 de Miles (já vivendo como uma celebridade pop) jogando basquete com John Lennon no quintal; uma ampliação da foto tirada no funeral de Jimi Hendrix; os memorandos trocados entre músico, agentes, produtores e executivos de gravadoras, sobre divergências e reclamações quanto aos pagamentos pelas gravações e pelos shows.

Há um cantinho dedicado às musas / namoradas / esposas de Miles, como Betty Davis (née Mabry), Cicely Tyson, Frances Taylor; e numa parede estão fixados vários quadros pintados por Miles, que também tinha seu lado de aspirante a pintor. É curioso assistir aos comerciais que Miles fez (inclusive de vodca e motocicletas), bem como trechos de diversas entrevistas, mas particularmente divertido é observar como ele apreciava e curtia o modo de vida de uma celebridade, com roupas espalhafatosas (muitas delas em exposição), carrões, fazendo caras e bocas para sessões de fotografia, e até participando (junto com Andy Warhol) de um desfile de moda.

Miles por Don Hunstein, na época de Kind of Blue.

Falando agora, porém, do ponto de vista de memorabilia musical, para o apreciador de jazz nada é tão emocionante quanto poder estar a poucos centímetros dos trompetes que Miles tocou, do saxofone que pertenceu a John Coltrane na época do Kind of Blue, da bateria que foi de Tony Williams. Isso para não falar nas partituras manuscritas dos arranjos de Gil Evans, sem esquecer de um item muito significativo — as notas manuscritas de Bill Evans com o texto da contracapa de Kind of Blue, que pode ser considerado, sem exagero, como uma verdadeira “breve teoria da improvisação no jazz”.

O 'segundo grande quinteto'. Wayne Shorter não aparece na foto.

Dentre os vídeos, alguns merecem destaque especial: um deles apresenta, em P&B na tela grande, uma apresentação do quarteto Miles-Wayne-Herbie-Ron-Tony – todos eles ainda jovens, especialmente Williams (então com 17 anos) e Hancock; outro traz a histórica apresentação do festival da Ilha de Wight, em 1970, em que Miles e seu grupo (incluindo o brasileiro Airto Moreira, cujos instrumentos de percussão também fazem parte da exposição) apresentaram uma colagem do disco Bitches Brew. Quando perguntado sobre qual o título da peça que havia sido apresentada, Miles respondeu: “Call it anyhting” (Chame de qualquer coisa) — o que ficou sendo o título da obra. O vídeo é notável por vários motivos, um deles pelo fato de nos dar uma oportunidade de ver Keith Jarrett e Chick Corea dividindo o mesmo palco. Outro vídeo contém o trailer de um documentário-entrevista com Teo Macero — o alquimista dos gravadores e mesas de mixagem, que mais do que qualquer outro fez jus (para o bem e/ou para o mal) ao título de “O Produtor” — discorrendo, com seu jeitão característico, sobre a maneira de lidar com Miles em estúdio e conseguir que ele fizesse o que precisava ser feito.

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Não é novidade falar sobre a evolução da música de Miles, que se transformou profundamente ao longo das décadas (exceto pelo seu som sem vibrato, que se manteve sempre inalterado, desde o cool até o funk). Isso sempre esteve disponível (cada vez mais, felizmente), e podia ser claramente percebido por quem quer que escutasse e assistisse a sua obra musical gravada e registrada. Porém, a exposição no Sesc Pinheiros tem o mérito de conferir relevo, perspectiva, detalhes e cores vívidas a essa evolução, e a apresenta de uma forma coesa e altamente concentrada. Ela consegue satisfazer, ao mesmo tempo, o senso de objetividade histórica, a curiosidade pelo detalhe, e acima de tudo, desperta uma enorme emoção ao conseguir trazer para bem perto de nós um dos grandes gênios (seja em que área for) do século XX — um personagem que, para cada um de nós, revive de novo e de novo, a cada vez que ligamos um aparelho que materializa e espalha pelo espaço e pelo tempo as notas memoráveis e eternas emitidas pelo seu trompete.

Sesc Pinheiros: Rua Paes Leme, 195 – Pinheiros – São Paulo. Metrô Pinheiros ou Faria Lima.

História viva do jazz em SP: Dois grandes shows de 2011

Destaco aqui os dois momentos de 2011 em que tivemos o privilégio de assistir, em São Paulo, a nada menos que a história viva do jazz: os shows do saxofonista Archie Shepp no Sesc Pompéia (semana Jazz na Fábrica) em 19/05 e o show do contrabaixista Ron Carter no Sesc Pinheiros em 22/10.

Ron Carter apresentou-se em quarteto, juntamente com a excepcional pianista Irene Rosnes, o baterista Payton Crossley e o consagrado percussionista Rolando Morales-Matos. Tocaram, sem interrupção entre as peças, um repertório baseado no disco Dear Miles (2007), em que não faltaram standards acrescidos de alguns temas da música brasileira.

Um momento do show de 22/10/11. Foto minha.

Carter estava em plena forma, com seu estilo que se vale muito das cordas duplas e dos portamentos, tal como se pode escutar em discos como The Bass and I (1997) e Eight Plus (2003).

(Ao lado: o programa do concerto.)

Carter — que, aos 74 anos de idade (por ocasião do concerto) já participou, estima-se, de cerca de 2500 álbuns — tocou com Miles Davis nos anos 60 e foi professor emérito do Departamento de Música do City College of New York. Não deixa de ser bastante adequado ter Carter como grande convidado para marcar a inauguração da exposição Queremos Miles (sobre a qual veja o próximo post). Ali podemos rever, em vídeo, áudio e foto, vários momentos do início de sua carreira com Miles Davis, no histórico “segundo grande quinteto”.

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Archie Shepp tocou, aos 74 anos de idade (mesma idade de Ron Carter), diante das duas platéias do teatro do Sesc Pompéia, com indiscutível autoridade e presença cênica um programa solidamente inserido em sua visão musical mais recente.

Um momento do show de 29/05/11. Foto minha.

O programa do concerto.

Em termos musicais, o show foi razoavelmente conservador, em vez de vanguardista (algo que Shepp também já foi): não rompeu com as tradições das baladas e do blues, também sem deixar de incluir seus temas e letras socialmente engajados.

Foto minha.

Foto minha.

Shepp, acompanhado por três veteranos — o agitado Steve McCraven à bateria, o simpaticíssimo Darryl Hall (que sempre se preocupava em tocar com o contrabaixo voltado alternadamente para as as duas platéias do teatro) e Tom McClung ao piano — também apresentou-se em várias peças como cantor.