Hegenberg, a teoria da informação, a música e eu

Maser_Fundamentos_Teoria_ComunicacaoLeônidas Hegenberg (1925-2012), filósofo da ciência, morto no último dia 28/11, foi uma influência importante para mim, em mais de um campo. (No meu outro blog, postei uma nota sobre ele como filósofo.) Quero agora falar de uma conexão com a música.

Os interesses de Hegenberg ultrapassavam a lógica e a filosofia da ciência, chegando à teoria da informação, o que fez com que, ao traduzir Fundamentos de teoria geral da comunicação, de Siegfried Maser (1975), incluiu um apêndice, baseado em alguns trabalhos que orientou no ITA com estudantes de graduação, sobre a determinação da entropia de textos em língua portuguesa.

Xenakis - Formalized Music

Bem, o ponto é que as implicações desse pequeno trecho me fascinaram, quando ainda era aluno de física no IFUSP, no final dos anos 80. Na época, a idéia de “tradução intersemiótica” (via Julio Plaza) estava minha na cabeça. Foi um pulo para que eu me interessasse pelo problema da análise matemática / informacional, não de textos verbais, mas sim de composições musicais.

Na época, outra leitura que incendiou minha imaginação era Formalized music: Thought and mathematics in composition de Iannis Xenakis. A edição em francês dessa obra incrível, fabulosa, está disponível para download.

Abaixo, duas partituras do compositor grego:

Iannis Xenakis - Metastasis (1954), manuscrito. Fonte: MOCA, Los Angeles

Iannis Xenakis – Metastasis (1954), manuscrito. Fonte: MOCA, Los Angeles

Iannis Xenakis, Terretektorh (1965), manuscrito. Fonte: MOCA, Los Angeles

Iannis Xenakis, Terretektorh (1965), manuscrito. Fonte: MOCA, Los Angeles

Comecei a enveredar não só pelas entropias, mas também pelas matrizes de Markov, autocorrelações e compressibilidades dos discursos musicais, e também por algoritmos composicionais. Ou seja, a idéia era usar estruturas matemáticas nos dois sentidos — tanto para analisar quanto para compor música.

Hoje isso é até bem corriqueiro, na música contemporânea, porém 25 anos atrás era quase novidade. E acabei escrevendo um texto em 1987 sobre tudo isso, como trabalho de curso de “Fenômenos aleatórios da Física”, analisando peças de Bach, Mozart, Beethoven, Stockhausen e Boulez, e terminava o texto compondo um “coral estocástico” a 4 vozes… Se eu conseguir encontrar esse texto e escaneá-lo, irei postar aqui, só por curiosidade.

E tudo isso começou com um texto de Leônidas Hegenberg. Adeus, velho mestre.

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