Paralelos entre física moderna e jazz: comentários sobre uma viagem totalmente especulativa

Bem, este texto do All About Jazz é uma “viagem” completa mas, sem dúvida, soa bem divertido. Em todo caso, vamos lá. Os comentários sobre o swing rítmico poderiam ser mais desenvolvidos: Charles Mingus explicou (cito de memória, não sei o quanto disto é meu) que o swing no jazz tem precisamente a função de criar o perfil de uma incerteza no ‘beat’ da nota: uma região de indeterminação em torno do beat preciso (de metrônomo), que dá à música um acúmulo de energia, uma propulsão, tal como a de uma mola. (Seria lícito pensar num princípio de incerteza tempo-energia [variáveis conjugadas]? Deixo a questão como exercício de especulação para os/as leitores/as.) Discordo totalmente do que se afirma no texto acerca da música de Bach: ela é cheia de ‘groove‘. Apenas os maus intérpretes pensam-na como mecânica. Ademais, lembro que a pianista e grande bachiana Rosalyn Tureck enfatizava que os ritmos da música barroca são tudo menos mecânicos. Quanto à improvisação (de novo Charlies Mingus, creio: “o músico de jazz é um compositor instantâneo”), creio que se pode fazer um paralelo (não desenvolvido no texto) com a integral de trajetória de Feynman de “soma de histórias” na eletrodinâmica quântica. Mais especificamente: há várias maneiras de desenvolver um tema, algumas mais prováveis, outras menos prováveis. O potencial criativo total de um tema dado à improvisação, um standard, por exemplo, corresponderia à integral (algo como uma soma, informalmente falando) sobre todas essas trajetórias.

De um ponto de vista mais geral, é preciso lembrar que as noções básicas para se interpretar o jazz num paralelo com a Física já estavam presentes no contexto de ideias, na visão de mundo do final do século XX e início do século XXI — ou seja, nem é preciso buscar, para começar, subsídios na teoria da relatividade e na mecânica quântica (embora isso possa abrir sedutoras avenidas interpretativas, que devem ser encaradas com cuidado). A mecânica estatística, o colapso do mecanicismo e do determinismo estrito, a teoria da evolução, a descoberta do inconsciente pela psicanálise (ainda que a teoria psicanalítica de Freud seja causal e determinista), e as geometrias não-euclidianas, já proporcionam os elementos necessários para esse paralelo e essa leitura. Finalmente, quanto à não-localidade, uma psicóloga de inspiração behaviorista poderia analisar tudo aquilo que acontece no processo de improvisação em termos de hábitos adquiridos — por processos de estímulo, resposta e reforço — sem falar em ‘telepatia’. Mas, do ponto de vista de nossas fantasias, claro que é muito mais legal pensar que os músicos, em uma gig de improvisação, estabelecem uma ‘correlação à distância’ entre si…

Anúncios

Victor Assis Brasil, Pedrinho

Is it John Coltrane (for some reason playing here the alto sax), with McCoy Tyner (piano), Jimmy Garrison (bass) and Elvin Jones (drums)? No: it’s Victor Assis Brasil (as), with Jota Moraes (p), Paulo Russo (b) and Ted Moore (d). The comparison is not, I think, wholly unwarranted. I have been listening to this record for thirty-five years already, and it still amazes me: it is clearly one of the greatest Brazilian jazz recordings ever. There wasn’t any jazz musician in Brazil as towering a figure as Victor. His phrasing is ambitious, daring, well-developed, large-scale; his articulation is exceedingly sharp and clear. Harmonic freedom and space for modulation is always generous. He could draw musical phrases of the utmost elegance, class and equilibrium, just as well as he could decompose his utterances into a myriad fractured, scattered sonic debris. His playing could be either smooth and fluid or steep and angular.

He always inspired the other musicians to give beyond the best of themselves. The recordings he has made along a remarkable, tragically short career (he died at age 35) provide ample evidence for this. Along the seven tracks of Pedrinho (vinyl LP, Odeon, 1981 — all of them available on Youtube), Moraes, Russo and Moore keep an impeccable groove all the time. Their improvisations are inspired, succinct, and elegant (Moraes sometimes makes one indeed think of McCoy Tyner). Changes of tempo and time signature are always seamless and convincing (listen, e.g. to “Night and Day” for an absolutely amazing example). The approach towards standards, both Brazilian (Caymmi’s “O cantador” and Milton Nascimento’s “Nada será como antes”) and North American (Cole Porter’s “It’s all right with me” and “Night and day”, as well as the Gershwins’ “S’wonderful”) is respectful yet inquisitive. Among Victor’s own compositions, the title track provides ample space for lyricism, while “Penedo” allows the most free, long-range, breathtaking improvisations of the whole record.

Exposição sobre Paulo Moura no Sesc Pompéia

Capa do programa da exposiçãoUma exposição memorável e muito bonita está em cartaz no SESC Pompéia, em São Paulo, focalizando a vida e obra do grande saxofonista Paulo Moura, que durante uma carreira extraordinariamente rica, transitou com autoridade entre a música erudita, a música instrumental contemporânea, a música latino-america de raiz, o samba de gafieira, o choro… A exposição traz vários dos instrumentos usados pelo instrumentista, bem como alguns de coleção (oriundos de suas viagens), fotografias, memorabilia variada, anotações manuscritas, etc.

Uma das coisas que mais me chamaram a atenção é o número de partituras e livros pertencentes ao maestro, especialmente de música contemporânea ou de ‘vanguarda’: Krzysztof Penderecki, Karlheinz Stockhausen, Hans-Joachim Koellreutter, Arnold Schoenberg, Anton Webern… Ele lia e refletia muito sobre as estéticas contemporâneas mais avançadas. Os painéis reproduzindo anotações de Moura em ponto grande tratam de temas como a dialética entre som e silêncio, e parecem revelar a influência de Koellreutter.

Tive o privilégio de assistir o duo Paulo Moura-Clara Sverner, sax e piano, em concerto no Masp, no final dos anos 80 ou início dos anos 90. Recordo-me perfeitamente que o programa daquela noite contava com mais composições ditas ‘clássicas’ do que ‘populares’. Foi tocada uma peça de Debussy — a Rapsódia para sax alto e orquestra, numa redução para piano. Na exposição, os duos de Moura com Sverner, Yamandu e outros são devidamente lembrados, assim como sua particpação no lendário projeto ConSerTão, com Artur Moreira Lima, Heraldo do Monte e Elomar.

A exposição fica em cartaz até dia 5 de setembro de 2012.

Billy Cobham está chegando

Foto: Tim Brooks (notesonjazz.blogspot.com) - ou Heinz Kronberger (www.drummerworld.com)

Um dos maiores bateristas de todos os tempos, lenda viva do seu instrumento no panorama no jazz-rock (e também em outras linguagens), o grande Billy Cobham, irá se apresentar no Sesc Pinheiros nos dias 28 e 29/01/11 (sábado e domingo). Estou na maior expectativa para o show de domingo. Admiro o trabalho do Maestro há três décadas.

A Mahavishnu em 1973. (Wikipedia)

Billy despontou com mais força no cenário musical quando tocou (entre 1969 e 1979) com Miles Davis — fazendo parte daquele time que, liderado pelo trompetista, deflagrou a revolução do jazz elétrico, de Bitches Brew até Circle in the Round — e também quando participou daquela máquina musical avassaladora e inesquecível que foi a Mahavishnu Orchestra liderada por John McLaughlin. Os discos da MO (cinco dos quais foram reeditados no Brasil num pack econômico da Sony BMG) mostram um Billy alucinado, com um virtuosismo, energia, criatividade e precisão aparentemente inesgotáveis. (Antes, bem no início da carreira, BC já havia tocado com gente boa como Horace Silver, George Benson, John Abercrombie e Michael Brecker.)

.

Enquanto o domingo não chega, vou me preparando mentalmente para o show escutando trabalhos como os discos solo Warning (1985) e Focused (1999), bem como a memorável jam session (de lavar a alma — certamente valerá uma resenha aqui, oportunamente) Live at The Greek (1994), com Stanley Clarke, Larry Carlton, Deron Johnson e Najee, bem como os clássicos da Mahavishnu. Espero postar aqui comentários após o show. Aguardem.

Miles Davis continua até dia 29/01 no Sesc Pinheiros

A exposição Queremos Miles, produzida pela Cité de la Musique francesa, foi prorrogada e continua em cartaz no Sesc Pinheiros até domingo, 29/01/2012. Trata-se de uma produção esmerada, documentando com material farto e raro material sonoro, iconográfico e manuscrito, e grande quantidade de memorabilia, as várias fases da música de Miles.

A exposição documenta as três revoluções de Miles: o cool jazz, o jazz modal e o jazz-rock ou jazz elétrico. O visitante, passando pelos vários ambientes cuidadosamente produzidos e montados (veja o mapa), pode fazer um percurso completo, indo desde os primeiros contatos de Miles com a música — ainda aluno iniciante no trompete — na época do swing, passando pelo início de carreira no ambiente bebop, tocando com Charlie Parker e muitos outros; a revolução do noneto do Birth of the Cool (final dos anos 40); a fase do hard bop e das viagens à Europa; o primeiro quinteto/sexteto (segunda metade dos anos 50); a fase das obras-primas com arranjos de Gil Evans (final dos 50 e início dos 60); a era de Kind of Blue e do jazz modal (de 59 até 63); o segundo grande quinteto (Miles-Shorter-Hancock-Carter-Williams); a fase de transição para o jazz elétrico e o contato com Joe Zawinul (1967-1969), o chamado jazz-rock de Bitches Brew, Live-Evil, e do festival da Ilha de Wight; os experimentos e o silêncio dos anos 70; até o ressurgimento como grande celebridade pop e os flertes com o funk e o hip hop nos anos 80.

.

.

Várias pequenas salas são especialmente projetadas para permitir a escuta de faixas selecionadas de discos seminais.

Miles Davis por Anton Corbjin, 1985.

Alguns momentos singulares para quem se interessa pelo personagem Miles e pelos aspectos da sua vida pessoal são, por exemplo, as fotos de um Miles surpreendentemente sorridente — ele, que sempre aparecia carrancudo — e com expressão suave, junto com a cantora Juliette Gréco, sua namorada na época; as fotos de infância, com Miles de calças curtas, e os diplomas da família (o pai era dentista e fazendeiro); três fotos grandes de um Miles extremamente à vontade no palco junto com o ‘Presidente’ Lester Young; um vídeo em super-8 de Miles (já vivendo como uma celebridade pop) jogando basquete com John Lennon no quintal; uma ampliação da foto tirada no funeral de Jimi Hendrix; os memorandos trocados entre músico, agentes, produtores e executivos de gravadoras, sobre divergências e reclamações quanto aos pagamentos pelas gravações e pelos shows.

Há um cantinho dedicado às musas / namoradas / esposas de Miles, como Betty Davis (née Mabry), Cicely Tyson, Frances Taylor; e numa parede estão fixados vários quadros pintados por Miles, que também tinha seu lado de aspirante a pintor. É curioso assistir aos comerciais que Miles fez (inclusive de vodca e motocicletas), bem como trechos de diversas entrevistas, mas particularmente divertido é observar como ele apreciava e curtia o modo de vida de uma celebridade, com roupas espalhafatosas (muitas delas em exposição), carrões, fazendo caras e bocas para sessões de fotografia, e até participando (junto com Andy Warhol) de um desfile de moda.

Miles por Don Hunstein, na época de Kind of Blue.

Falando agora, porém, do ponto de vista de memorabilia musical, para o apreciador de jazz nada é tão emocionante quanto poder estar a poucos centímetros dos trompetes que Miles tocou, do saxofone que pertenceu a John Coltrane na época do Kind of Blue, da bateria que foi de Tony Williams. Isso para não falar nas partituras manuscritas dos arranjos de Gil Evans, sem esquecer de um item muito significativo — as notas manuscritas de Bill Evans com o texto da contracapa de Kind of Blue, que pode ser considerado, sem exagero, como uma verdadeira “breve teoria da improvisação no jazz”.

O 'segundo grande quinteto'. Wayne Shorter não aparece na foto.

Dentre os vídeos, alguns merecem destaque especial: um deles apresenta, em P&B na tela grande, uma apresentação do quarteto Miles-Wayne-Herbie-Ron-Tony – todos eles ainda jovens, especialmente Williams (então com 17 anos) e Hancock; outro traz a histórica apresentação do festival da Ilha de Wight, em 1970, em que Miles e seu grupo (incluindo o brasileiro Airto Moreira, cujos instrumentos de percussão também fazem parte da exposição) apresentaram uma colagem do disco Bitches Brew. Quando perguntado sobre qual o título da peça que havia sido apresentada, Miles respondeu: “Call it anyhting” (Chame de qualquer coisa) — o que ficou sendo o título da obra. O vídeo é notável por vários motivos, um deles pelo fato de nos dar uma oportunidade de ver Keith Jarrett e Chick Corea dividindo o mesmo palco. Outro vídeo contém o trailer de um documentário-entrevista com Teo Macero — o alquimista dos gravadores e mesas de mixagem, que mais do que qualquer outro fez jus (para o bem e/ou para o mal) ao título de “O Produtor” — discorrendo, com seu jeitão característico, sobre a maneira de lidar com Miles em estúdio e conseguir que ele fizesse o que precisava ser feito.

– – –

Não é novidade falar sobre a evolução da música de Miles, que se transformou profundamente ao longo das décadas (exceto pelo seu som sem vibrato, que se manteve sempre inalterado, desde o cool até o funk). Isso sempre esteve disponível (cada vez mais, felizmente), e podia ser claramente percebido por quem quer que escutasse e assistisse a sua obra musical gravada e registrada. Porém, a exposição no Sesc Pinheiros tem o mérito de conferir relevo, perspectiva, detalhes e cores vívidas a essa evolução, e a apresenta de uma forma coesa e altamente concentrada. Ela consegue satisfazer, ao mesmo tempo, o senso de objetividade histórica, a curiosidade pelo detalhe, e acima de tudo, desperta uma enorme emoção ao conseguir trazer para bem perto de nós um dos grandes gênios (seja em que área for) do século XX — um personagem que, para cada um de nós, revive de novo e de novo, a cada vez que ligamos um aparelho que materializa e espalha pelo espaço e pelo tempo as notas memoráveis e eternas emitidas pelo seu trompete.

Sesc Pinheiros: Rua Paes Leme, 195 – Pinheiros – São Paulo. Metrô Pinheiros ou Faria Lima.

História viva do jazz em SP: Dois grandes shows de 2011

Destaco aqui os dois momentos de 2011 em que tivemos o privilégio de assistir, em São Paulo, a nada menos que a história viva do jazz: os shows do saxofonista Archie Shepp no Sesc Pompéia (semana Jazz na Fábrica) em 19/05 e o show do contrabaixista Ron Carter no Sesc Pinheiros em 22/10.

Ron Carter apresentou-se em quarteto, juntamente com a excepcional pianista Irene Rosnes, o baterista Payton Crossley e o consagrado percussionista Rolando Morales-Matos. Tocaram, sem interrupção entre as peças, um repertório baseado no disco Dear Miles (2007), em que não faltaram standards acrescidos de alguns temas da música brasileira.

Um momento do show de 22/10/11. Foto minha.

Carter estava em plena forma, com seu estilo que se vale muito das cordas duplas e dos portamentos, tal como se pode escutar em discos como The Bass and I (1997) e Eight Plus (2003).

(Ao lado: o programa do concerto.)

Carter — que, aos 74 anos de idade (por ocasião do concerto) já participou, estima-se, de cerca de 2500 álbuns — tocou com Miles Davis nos anos 60 e foi professor emérito do Departamento de Música do City College of New York. Não deixa de ser bastante adequado ter Carter como grande convidado para marcar a inauguração da exposição Queremos Miles (sobre a qual veja o próximo post). Ali podemos rever, em vídeo, áudio e foto, vários momentos do início de sua carreira com Miles Davis, no histórico “segundo grande quinteto”.

.

.

.

Archie Shepp tocou, aos 74 anos de idade (mesma idade de Ron Carter), diante das duas platéias do teatro do Sesc Pompéia, com indiscutível autoridade e presença cênica um programa solidamente inserido em sua visão musical mais recente.

Um momento do show de 29/05/11. Foto minha.

O programa do concerto.

Em termos musicais, o show foi razoavelmente conservador, em vez de vanguardista (algo que Shepp também já foi): não rompeu com as tradições das baladas e do blues, também sem deixar de incluir seus temas e letras socialmente engajados.

Foto minha.

Foto minha.

Shepp, acompanhado por três veteranos — o agitado Steve McCraven à bateria, o simpaticíssimo Darryl Hall (que sempre se preocupava em tocar com o contrabaixo voltado alternadamente para as as duas platéias do teatro) e Tom McClung ao piano — também apresentou-se em várias peças como cantor.