Monteverdi, ou Como estar no centro do Big Bang

Cosmogonia em forma de som. Como estar no centro do Big Bang (que, por sinal, não tem centro…)

É mais ou menos assim a sensação, indescritível, integrar o grupo de tenores do cantus firmus no moteto “Lauda, Jerusalem, Dominum”, de Claudio Monteverdi, uma das seções das monumentais Vespro Della Beata Bergine de 1610. A versão a seguir, do ensemble Cantar Lontano é, dentre as disponíveis no youtube, aquela que melhor destaca essa coluna vertebral da peça, ao redor da qual se organizam fantasticamente os outros dois corais a 3 vozes.

Mas os intérpretes usam aqui uma afinação uma quarta abaixo da original. Nós cantávamos — tanto no Coralusp quanto no Collegium Musicum, muitos anos atrás — na afinação original de Monteverdi, que é quase suicida. E, contudo, sobrevivemos… 🙂 Aqui, na versão velocíssima do Tallis Scholars, com partitura sobreposta, para que possamos acompanhar:

Na versão em tonalidade baixa, perde-se o arrojo do cantus firmus dos tenores, bem como dos sopranos I e II que arremetem para o “lá” agudo como um míssil.

A versão de Philippe Herreweghe também é na tonalidade baixa — e, na gravação a seguir, parece estar um tom ainda mais baixo, resultando ainda mais sombria!

Para comparação, mais uma versão na tonalidade alta original:

O ponto culminante da peça e do texto — que, como afirmei, é cósmico, de arrepiar — principalmente quando ouvido na tonalidade alta, traz as palavras:

Qui emittit eloquium suum terrae, velociter currit sermo eius; qui dat nivem sicut lanam, nebulam sicut cinerem spargit; mittit cristallum suum sicut buccellae. Ante faciem frigoris eius quis sustinebit? Emittet verbum suum et liquefaciet ea; flabit spiritus eius et fluent aquae.”

Todo o Vespro de Monteverdi é uma imensa cosmologia-cosmogonia em forma de som.

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