Bach BWV 29, ou o remix “avant la lettre”

Bach_BWV29O fantástico projeto All of Bach, empreendido pela Netherlands Bach Society, divulgou sua performance da Cantata BWV 29, “Wir danken dir, o Gott, wir danken Dir”, sob a regência de Jos van Veldhoven.

Além de ser uma maravilha, esta cantata evidencia, com todo o impacto, o lado “DJ / Remixer” de JSB (entre outros exemplos espalhados por sua obra, como o “Weihnachts-Oratorium” [Oratório de Natal] BWV 248, que está cheio deles). Vejamos duas instâncias disso na peça.

I

A Sinfonia de abertura da Cantata BWV 29 tem sua origem na obra de Bach como prelúdio da Partita BWV 1006 para violino solo (!) e como prelúdio da Suíte No. 4, BWV 1006a para alaúde (!!). A seguir, duas interpretações do BWV 1006a, ambas em transcrição do alaúde para o violão. Uma com John Williams:

e outra (em tempo bem mais lento) com Göran Söllscher:

E aqui está a versão fulminante de Gidon Kremer ao violino para a Partita BWV 1006:

Na partita para violino, tão importante quanto aquilo que soa é aquilo que é virtual — aquela parte do espaço sônico e das estruturas nesse espaço que é apenas sugerida ou deixada implícita pelo compositor, para que nossa mente, então, encarregue-se de preencher esse espaço.

Não poderia deixar de lembrar aqui também a interpretação antológica feita por Wendy Carlos, ainda na fase heróica dos sintetizadores analógicos — eis aqui duas recriações atuais: 1 (mais fiel a WC) | 2).

II

Já o Coral de abertura da Cantata BWV 29 (no vídeo do projeto AoB, a partir de 4:00) reaparece como nada mais, nada menos que o “Gratias Agimus Tibi” da Missa em Si Menor, BWV 232, aqui com o coral da Thomaskirche de Leipzig e a orquestra do Gewandhaus de Leipzig, no Bachfest 2000, tendo Georg Christoph Biller como “Thomaskantor”:

O mais surpreendente é que a mesma composição reaparece de novo como encerramento sublime da mesma Missa, no “Dona Nobis Pacem” — a seguir com a Klaipėda Chamber Orchestra, o Klaipėda Choir “Aukuras” e o Šiauliai State Chamber Choir “Polifonija” (todos da Lituânia), sob a regência de Saulius Sondeckis:

Como escrevi acima, há muitos exemplos mais desse processo de recontextualização e recriação dentro da obra de Bach. Espero voltar ao tema em breve.

E quem irá dizer que Bach não é o inventor e o máximo expoente do remix! 🙂

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Monteverdi, ou Como estar no centro do Big Bang

Cosmogonia em forma de som. Como estar no centro do Big Bang (que, por sinal, não tem centro…)

É mais ou menos assim a sensação, indescritível, integrar o grupo de tenores do cantus firmus no moteto “Lauda, Jerusalem, Dominum”, de Claudio Monteverdi, uma das seções das monumentais Vespro Della Beata Bergine de 1610. A versão a seguir, do ensemble Cantar Lontano é, dentre as disponíveis no youtube, aquela que melhor destaca essa coluna vertebral da peça, ao redor da qual se organizam fantasticamente os outros dois corais a 3 vozes.

Mas os intérpretes usam aqui uma afinação uma quarta abaixo da original. Nós cantávamos — tanto no Coralusp quanto no Collegium Musicum, muitos anos atrás — na afinação original de Monteverdi, que é quase suicida. E, contudo, sobrevivemos… 🙂 Aqui, na versão velocíssima do Tallis Scholars, com partitura sobreposta, para que possamos acompanhar:

Na versão em tonalidade baixa, perde-se o arrojo do cantus firmus dos tenores, bem como dos sopranos I e II que arremetem para o “lá” agudo como um míssil.

A versão de Philippe Herreweghe também é na tonalidade baixa — e, na gravação a seguir, parece estar um tom ainda mais baixo, resultando ainda mais sombria!

Para comparação, mais uma versão na tonalidade alta original:

O ponto culminante da peça e do texto — que, como afirmei, é cósmico, de arrepiar — principalmente quando ouvido na tonalidade alta, traz as palavras:

Qui emittit eloquium suum terrae, velociter currit sermo eius; qui dat nivem sicut lanam, nebulam sicut cinerem spargit; mittit cristallum suum sicut buccellae. Ante faciem frigoris eius quis sustinebit? Emittet verbum suum et liquefaciet ea; flabit spiritus eius et fluent aquae.”

Todo o Vespro de Monteverdi é uma imensa cosmologia-cosmogonia em forma de som.