Entre as estrelas

Um momento histórico. Atingidas as 125 unidades astronômicas, ou 18 bilhões e 750 milhões de quilômetros, ultrapassada a heliopausa. E ainda transmitindo, já fraquinha como uma lâmpada, mas ativa (e mais intensa do que muitos sinais captados pelos radiotelescópios). A coisa mais próxima que temos do Sideronauta de A. C. Clarke. E assim a Voyager 1 segue em frente à velocidade de 61000 km/h. E levando consigo (assim como sua irmã gêmea, a Voyager 2) o precioso Disco.

Analógico ainda, como explicado por Sagan, Drake, Lomberg et al em Murmúrios da Terra — onde também se conta dos inúmeros dilemas e impasses que cercaram a seleção do material a ser codificado — mas mesmo assim é “O” disco. Um objeto singular, dotado de um simbolismo único na história da espécie humana. Um fragmento sistemático de nosso lugar e de nossa passagem pelo cosmos. Como dizia a abertura de Millennium, “This is who we are”. Descontemos o fato de que o disco vem rotulado “United States of America”. Afinal, o Disco é, inevitavelmente, como qualquer criação humana, claro, oriundo de uma época, um contexto, uma visão de mundo, um sistema de valores. Porém penso que isso, por si só, não invalida o projeto como um todo. Ele adquire um significado muito maior do que as contingências nacionais e políticas no seio das quais foi criado.

O conteúdo do Disco está na íntegra aqui. Mesmo que reste uma indeterminação da tradução na decodificação das mensagens visuais, verbais e musicais  (a la Quine), só a tentativa de encontrar signos que possam ser percebidos por alguma inteligência não-humana e, quem sabe, esta possa atribuir-lhes algum sentido — isso sob a perspectiva mais geral que os seres humanos foram capazes de imaginar — já é, em si, um desafio fascinante.

O Disco da Voyager, independemente de vir a ser efetivamente encontrado ou não por alguma civilização extraterrestre inteligente, é também — e talvez principalmente — uma mensagem para nós mesmos.

Quando a espaçonave fria, desativada e inerte cruzar silenciosamente o gás interestelar — sua amostra de urânio-238 decaindo lentamente de modo a indicar-lhe a idade — embalada somente pela radiação de fundo de microondas, levando aqui e ali o impacto de algum elétron desgarrado acelerado pelo campo magnético da Galáxia, ainda transportará sua preciosa carga.

E, quem sabe, um dia (dia nosso ou dia galáctico), quando nosso planeta já estiver talvez girando desabitado, João Sebastião e Glenn Gould ainda irão soar entre as estrelas.

(A cena final de “Thirty-two short films about Glenn Gould”, de François Girard, quando o pianista canadense finalmente parte desta, e o foguete parte para o espaço, chama-se, apropriadamente, “Voyager”.)

NASA Spacecraft Embarks on Historic Journey Into Interstellar Space

Voyager 1 Spotted from Earth with NRAO’s VLBA and GBT Telescopes

Uma explicação do icônico estojo exterior dourado está aqui.

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