Sobre Billy Cobham no Sesc

Billy Cobham tocou no Teatro Paulo Autran do Sesc Pinheiros em 29/01/2012 (e também na véspera, dia 28), com uma banda cuja formação incluía Christophe Cravero (teclados), Jean-Marie Ecay (guitarra), Marcos Lobo (percussão), Michael Mondesir (contrabaixo) e Junior Wells ao “steel pan” típico de Trinidad e Tobago (às vezes também chamado de “steel drum”).

Escrevo sobre esse show do Maestro com um sentimento dividido. O repertório do show — que incluiu temas de Miles como “81” e de Wayne Shorter como “Iris” e a clássica “E.S.P.” — foi executado por todo o grupo com competência e energia, com Billy fazendo passagens rapidíssimas, sem uma nota em falso, sem um esbarrão das baquetas. Mesmo mantendo um olho bem atento, às vezes era difícil discernir os movimentos das mãos do baterista, deslocando-se entre as peças do seu setup, de tão rápidos. Em várias ocasiões os solistas demonstraram de sobra a sua competência técnica — em especial o guitarrista Ecay, o percussionista Lobo e o “steel panner” Gill. O duo de Billy e Lobo ao berimbau foi memorável: este é um percussionista de muitos recursos técnicos e expressivos, uma grata surpresa, na verdade. Ou seja, houve muito para saborear.

Porém, neste show notei, de novo, algo que já havia percebido em outras ocasiões, em shows de grupos ligados à fusion: o repertório desse estilo muitas vezes recai em uma certa mesmice. Muitas interpretações se ressentem da falta de uma idéia musical poderosa como base. O resultado às vezes soa como se fosse a repetição de uma fórmula, um molde, um esquema predefinido. Curiosamente, isso é algo que eu já julgava perceber em alguns dos discos de Cobham como líder, como Focused e Warning.

Alguém afeito a uma linguagem mais antiga diria que faltou uma dose maior de “inspiração” propriamente musical, composicional  — e podemos certamente falar em “composicional” aqui, visto que o músico de jazz é um compositor instantâneo, como já percebera Charles Mingus. Bem, talvez seja precisamente por esse fato que um sem-número de críticos de jazz mais tradicionais torcem o nariz, há décadas, para o chamado jazz-rock. Se for esse o motivo, creio que pode ser o caso pelo menos de levarmos em conta e meditarmos um pouco naquilo que dizem.

É claro que quem — como este que vos escreve — foi criado em meio à tórrida sintaxe sonora de Return to Forever, Mahavishnu Orchestra, Pat Metheny, Jean-Luc Ponty e outros (para não falar do progressivo e da eletrônica), nunca irá dizer que um show do grupo de Billy Cobham não vale a pena. Porém, lá no fundo, temos consciência de que, se compararmos o repertório deste show no Brasil com, digamos, Porgy and Bess de Miles Davis e Gil Evans, Three Quartets de Chick Corea, Quartet Dortmund 1976, de Anthony Braxton, Land of Giants de McCoy Tyner, Take Five de Dave Brubeck, Misterioso de Thelonious Monk, In a Silent Way de Miles Davis et al, Three Windows do Modern Jazz Quartet — para citar apenas alguns exemplos aleatórios — iremos perceber que não é impossível distinguir quando aquela centelha mais inequívoca da inspiração está presente e quando não está…

(As fotos do show, tiradas com um celular, estão, na melhor das hipóteses, sofríveis, o que foi agravado devido ao lugar de onde foram tiradas, a platéia superior do teatro.)

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